Acordo UE-Mercosul, rastreabilidade, pressões do mercado: o futuro da Amazônia também passa pelas nossas relações comerciais. Partindo de análises do pesquisador Paulo Barreto, este artigo discute um risco central: livre-comércio é compatível com desmatamento zero?
Esse texto é uma tradução de um artigo publicado originalmente em francês na newsletter Station Amazonie, que busca apresentar ao publico francês as perspectivas dos Amazônidas sobre o seu território.
Desde o início do século, uma em cada três árvores derrubadas foi no Brasil.
O Brasil teria sido responsável por 31% do desmatamento mundial entre 2001 e 2022, segundo um estudo da Universidade de Chalmers (Suécia) realizado em mais de 179 países.
O presidente Lula se comprometeu a zerar o desmatamento ilegal até 2030.
Desde 2022 (com o fim do governo Bolsonaro), o desmatamento caiu 50%, chegando a um dos patamares mais baixos da série histórica.
A Amazônia é um território complexo, em que tanto o pior quanto o melhor continuam sendo possíveis.
Para tratar esse tema com a complexidade que ele exige, convido você a seguir comigo o caminho que venho construindo há mais de um ano, na minha newsletter:
Observar a Amazônia do outro lado da luneta, para sair da abstração e entender esse território a partir de quem vive nele.
(Para quem gosta de retrospectivas, os 26 artigos estão em acesso livre aqui.)
No meu último artigo, eu falava sobre como o acordo do Mercosul foi percebido por lá.
Esta semana, a pergunta é: como o acordo e, portanto, as trocas que nós, europeus, teremos com o Brasil, pode impactar o desmatamento?
Para buscar respostas, fui conversar com Paulo Barreto, pesquisador associado do Imazon, uma instituição científica amazônica sem fins lucrativos que atua pela conservação e pelo desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Há 31 anos, o cientista estuda as causas do desmatamento na Amazônia e os meios de pôr fim a ele.
Nascido no estado da Bahia, o engenheiro florestal cresceu em Castanhal, cidade a cerca de uma hora de carro de Belém, no estado do Pará (Amazônia brasileira).
“Fui testemunha da mudança da paisagem desde os anos 70. Vi o desmatamento e a erosão avançarem com meus próprios olhos.”
Essa lembrança, combinada com uma paixão por estatística e climatologia, o levou a se interessar pelas causas dessa mudança na paisagem e pelos meios de desacelerá-la.
Perguntei a ele o que pensava sobre o impacto potencial do acordo de livre-comércio.
Livre-comércio + floresta = ?
“Para entender o impacto potencial desse acordo, analisei outros acordos. Em geral, acordos de livre-comércio tendem a aumentar o desmatamento. Porque, com a redução das tarifas, os atores importam mais e isso gera mais desmatamento. Essa é a base.”
Entre outras fontes, o pesquisador se apoia no estudo publicado em 2020 por Abman e Lundberg. Eles constataram que os acordos de livre-comércio firmados entre 2001 e 2012, aos quais aderiram 189 países, levaram a um aumento significativo do desmatamento nos três anos seguintes à entrada em vigor.
Como ele escreve no riquíssimo relatório “O acordo comercial UE-Mercosul está a salvo do desmatamento?”, publicado em 2020 pelo Imazon:
“Nossa análise e nossa revisão de experiências passadas mostram que o desmatamento se intensificaria em razão do aumento da demanda, somado ao enfraquecimento, tanto no plano oficial quanto no informal, das medidas de proteção florestal nos últimos anos. Além das perdas biológicas e climáticas, essa alta da demanda poderia prejudicar comunidades indígenas vulneráveis.”
Desde a redação do relatório, em 2020, o acordo comercial mudou pouco, sobretudo na reta final das negociações. Entre as alterações, há cotas, embora elas sejam vistas principalmente como uma forma de proteger a agricultura europeia.
A parte juridicamente vinculante contra o desmatamento não vem exatamente do acordo em si, mas da nova política de Desmatamento Zero da União Europeia.
Um novo regulamento vai entrar em vigor e valerá para todos os parceiros comerciais, e não apenas para a América Latina: o Regulamento Europeu contra o Desmatamento (RDUE).
Ao constatar que o desmatamento pelo qual é responsável é, em grande parte, “importado” por meio dos produtos que consome, a UE decidiu fechar o acesso do seu mercado a esses itens.
Na prática, a partir de 30 de dezembro de 2026, será proibido importar cacau, café, óleo de palma, soja, borracha, carne bovina e madeira originários de áreas desmatadas a partir de dezembro de 2020.
Na prática, os vendedores deverão conseguir garantir a procedência de seus produtos.
O “passaporte” do boi em defesa da floresta
A rastreabilidade é, portanto, uma questão-chave para garantir que o aumento das importações de produtos da Amazônia brasileira não gere pressão adicional sobre a floresta e seus habitantes.
Como me explica Paulo Barreto, não há dificuldade tecnológica nem legal. Ferramentas avançadas já existem.
“No caso da carne bovina, a Europa já importa com uma exigência de rastreabilidade ligada à saúde. Um sistema existe: o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (SISBOV).”
Cada boi recebe um número de identificação que permite garantir sua origem.
Para integrar dados ligados ao desmatamento, “basta conectar esse banco de dados a bases que já existem e que registram o desmatamento”.
A barreira, portanto, não é tecnológica nem financeira.
“Para mim, a principal barreira é institucional. O setor do agronegócio é dominado por uma tendência conservadora que não quer transparência.”
O Imazon e a Norway’s International Climate and Forest Initiative lançaram o Radar Verde, uma plataforma que monitora e divulga dados sobre o desmatamento e as pressões ambientais na Amazônia.
No último relatório deles sobre a rastreabilidade das importações europeias, publicado em 2025, eles fazem uma constatação alarmante:
“80% dos 15 frigoríficos da Amazônia habilitados a exportar carne bovina para a UE demonstram controle sobre seus fornecedores diretos, mas nenhum demonstra, com evidências sólidas (auditorias externas), controle sobre seus fornecedores indiretos.
Nessas condições, fornecedores indiretos que praticam desmatamento podem vender bezerros ou bovinos jovens para fazendas de engorda que fornecem gado para empresas do setor bovino.”
O SISBOV identifica os animais apenas até 90 dias antes do abate e não recompõe toda a trajetória quando a fazenda de origem é diferente da fazenda de engorda final.
Em outras palavras, frigoríficos podem fazer “lavagem” de gado/carne: comprar animais criados em áreas desmatadas e revender a carne como se fosse “limpa”.
O risco de novo desmatamento nas áreas potenciais de abastecimento desses frigoríficos variava entre 31 mil e 2,8 milhões de hectares.
“A vontade de melhorar a pecuária e acabar com o desmatamento não virá dos pecuaristas. Isso não vai acontecer. E o governo tem dificuldade de implementar medidas, porque quem está no poder geralmente está sob influência desse setor.”
O lobby do agronegócio domina o parlamento: a Frente Parlamentar da Agropecuária conta, assim, com 294 deputados em suas fileiras, ou seja, 57% dos eleitos.
O cliente tem sempre razão
Para o cientista, a mudança só virá se o cliente exigir.
“As grandes transformações do setor pecuário no Brasil nos últimos anos vieram de pressões externas.”
Em 2015, a China reabriu seu mercado para o Brasil, depois de tê-lo fechado por razões sanitárias.
Com uma condição: fornecer um produto de qualidade, padronizado e seguro.
Na prática, isso significava vacinar o rebanho, selecionar melhor as pastagens e abater os animais mais jovens.
Foi o potencial do mercado chinês que empurrou o setor a se estruturar.
Paulo Barreto conclui com estas palavras: “Se os europeus querem carne sem desmatamento, vão precisar realmente fazer essa exigência com seriedade.”
Do lado europeu, não é certo que a mensagem esteja sendo recebida.
O Regulamento contra o Desmatamento, aprovado pelo Parlamento Europeu, deveria inicialmente entrar em vigor em dezembro de 2024.
Em novembro de 2025, quando a COP de Belém acabava de terminar, o Parlamento Europeu votou para adiar, pela segunda vez (!), a entrada em vigor da regulamentação para dezembro de 2026.
As razões apontadas: obstáculos técnicos, pressões externas (Brasil, Estados Unidos e Indonésia) e o contexto político europeu.
Se os obstáculos técnicos podem ser superados, o cenário geopolítico não indica nada de bom para a Amazônia.
Em um contexto político europeu fragilizado, as capacidades de resistir a pressões externas e internas ficam enfraquecidas.
Mas não há fatalidade: ainda podemos escolher em quem votamos e o que compramos.